Sabia da rudeza de suas últimas palavras e, por isso, resolveu escrever-lhe:
Caro amigo,
É de coração aberto que te chamo assim. Sei que, por um tempo, muito tempo, não fomos amigos; apenas conhecidos. Todavia também sei que fomos companheiros e companheiros como nós, tão cúmplices de nós mesmos, não se encontram facilmente por aí.
Desculpe se fui rude ao te agradecer o teu desprezo, mas temia que minha mais humana alegria fosse inibida por mais um sorriso teu. Os teus sorrisos, bem sabes, não foram, nos últimos meses, aqueles pelos quais eu teria dado o meu reino para ver.
Senti-me triste por não ter visto, em tuas últimas palavras, a tristeza que senti quando nosso "nós" chegou ao fim. Hoje, porém, a decepção já se perdeu em meio às tantas boas lembranças que "o menino dela" deixou em mim. E também se foi porque sei que, em ti, "a menina dele" ainda existe, da forma como costumava ser: tua, somente tua, de mais ninguém. Ele dela e ela dele são o melhor de ti em mim; de mim, em ti.
Eu quis poder-te dizer tudo pessoalmente, mas esse teu mundo tão novo não me permitiu. E agora o meu mundo novo adiará, para talvez nunca mais, o reencontro.
Escrevo-te não para te dizer que perdoei.
Se isso te dissesse, hoje, não estaria mentindo ou agindo de má fé, mas tenho a certeza de que o meu coração, tão errôneo e tão mesquinho, lembraria, no futuro, que não era ainda capaz de perdoar e te diria, sem dó nem piedade, o quanto sofreu por ti. Não te posso desculpar, mas já não te vejo maculado, apenas equivocado na escolha que fizeste, ao dizer-me que te querias para sempre meu.
Não te peço respostas, mas não porque as tema. Peço-te somente que, se um dia pensares em te dirigires a mim, não tentes escolher bem as palavras, pois, longe de mim, estás destreinado e não me quererás magoar mais, assim.
Feliz 2010.