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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Então ele começou a falar. Com disciplina, ela tentava entender o que ele lhe dizia. Não conseguiu. As sílabas pareciam cortadas. As palavras não existiam e, enfim, ela percebeu que nada mais fazia sentido.

Ela sorriu.
Calçou os chinelos, reamarrou o robe floral de seda.
Levantou-se, saiu da casa e daquela vida que talvez nunca tivesse sido dela. Fechou a porta e, clichemente, foi ser feliz.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Tudo estava igual, mas agora o ar se cortava com faca. Ele sabia o mal que fizera a ela, mas não imaginava que o tempo, embora um só, fazia-se lento para aqueles cujo mais grave e único delito fora amar demais.

Quis manifestar-se, mas a vergonha de sua mesquinhez o manteve silente a observar o tempo que esquecera de passar por ali. Pensou em dizer a ela toda a verdade, a confusão que lhe tomou o peito e fê-lo agir sem respeito com alguém a quem um dia dirigiu palavras de amor questionavelmente verdadeiro. Fraco, não pôde; não quis; não soube.

Mas agora ela estava ali, olhando para ele, esperando qualquer palavra que nem ela, nem ele sabiam.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Sentou-se em frente a ele, encarando-lhe o olhar baixo de quem em bolsos escondia as mãos. Ponderou. Levantou-se mais uma vez e flutuou em direção ao café que esfriara sobre a mesa. Deu um gole, talvez o mais amargo desde a partida dele. Voltou a encará-lo.

Quis lhe bater, macular os traços que ainda restavam daquele a quem um dia se entregou. Não havia por quê. O amante sucumbira entre os lençóis; o amado, no desbotamento natural das lembranças que, naquela cidade fria, ele deixou para trás.

Em pensamento, atirou a xícara contra a parede branca, mas deixou por isso, porque depois estaria mais uma vez sozinha a juntar cacos, remontando metaforicamente o que vinha sendo a sua vida desde o dia em fora amputada da história que ajudou a construir.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Eram 7h da manhã de um sábado nublado.
Sentada à mesa, ela lia as manchetes do dia anterior. O café esfriara e o pão, adormecido, permanecia encostado a um canto do prato.

Ouviu a campainha. Dirigiu-se à porta e pôde avistá-lo pelo olho mágico.
Quanto tempo havia desde seu último contato? Por que a procurava agora?

Amarrou o robe floral de seda e, respirando fundo, girou a chave e a maçaneta. Olharam-se por poucos e infindáveis segundos, até que ele, no olhar, convidou-se para entrar. Embora receosa, apontou-lhe o sofá ao lado do corredor, onde repousavam as almofadas que ele lhe dera em seu último aniversário.

O tempo havia parado ali: os mesmos quadros, os livros e as correspondências que ele deixara para trás. Olhou ao redor e lembrou o que viveram naqueles espaços: entre cafés e fotos, risos e abraços ausentes; a lista das coisas que sonharam juntos, em separado.

Enquanto isso, encostada à janela, ela fitava as nuvens que ainda se podiam distinguir no céu cinzento. Cultivava o silêncio que ele lhe oferecera durante anos de ausência inexplicada; esperava por um gesto, por uma palavra que lhe justificasse o tempo que esperara por eles. Nada.

Então ela se viu sozinha, como sempre esteve, mas respirou toda liberdade que alguém poderia ter. E, de repente, ser livre não mais a assustava.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Quando chegou o momento de conhecerem-na como só Ele sabia, Ela se permitiu sorrir. Ingenuamente, sem saber que a distância entre aqueles corpos era intransponível, o Outro lhe perguntou: "De que sorris?"
Não soube nem lhe pôde explicar, mas quase morreu de saudade, real e pleonasticamente, porque seus sorrisos eram cuidadosamente construídos por eles dois. Ele os entendia bem e ficava feliz em vê-los. Da mesma forma, Ela era feliz em ouvir todos os Seus sons.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Não adiantava mais tentar. Seu coração ardia como pés em fim de baile.
Endurecida na esperança de um amor que não lhe era mais oferecido, quis reencontrar, perguntar "Como vai?", ser dele em sua mais sincera e delicada plenitude. Não pôde.

Precisava se apaixonar, nem que fosse por ela mesma.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Na gaveta, um papel mal dobrado, com traços de amassado.
Abriu-o.

"A mim, bastaria que me dissesses ter lembrado de sermos feitos um pro outro. Um chamado em qualquer noite fria, para que eu levasse a ti meu aconchego e para que me fizesses sorrir daquele jeito que não sorri para mais ninguém. A mim, talvez, bastar-me-ias."

Não sabia mais por que o escrevera.
Mal educada, jogou-o pela janela, e para fora de uma vida que um dia também foi sua.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Esta é só mais uma história comum de um par de pernas curtas.
Uma história da qual você já deve ter ouvido falar, mas não faz ideia do tanto que ainda está por trás e que vem à tona de mansinho, querendo derrubar.

As suas pernas curtas

As pernas curtas tinham um caráter doce e um sorriso cativante. Andavam sempre em boas companhias e arranjaram um par de pernas tortas com quem se enroscar. O enlace foi tão certo, que resolveram se casar.

Mas as pernas tortas não sabiam que as pernas curtas estavam fazendo aquilo só porque achavam que as pernas, mesmo tortas, eram legais. As curtas não queriam mais com as tortas se enroscar. Era um esforço para as curtas pensar em dividir o mesmo espaço com pernas agora tão sem graça. Mesmo assim, as pernas tortas eram legais e já haviam caminhado longo percurso ao lado das curtas. E ratificaram se casar.

Mas, pouco depois, o joelho na quina da mesa de centro.

E as pernas tortas aprenderam, com aquela dor aguda, que com pernas curtas não se deve casar. Afinal, é complicado lidar com quem quer dar passo maior que a própria perna, não é mesmo?

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Ela acordou temerosa. Queria a liberdade da juventude. Mas, aos 12 anos, não sabia que os 24 chegariam tão logo ela piscasse os olhos.

E a juventude chegou.
Por vezes, quis botões de rewind e forward. Se os tivesse, tê-los-ia usado certamente, mas perderia toda surpresa, todo encanto e toda dor do que se configura tão poético e dela.

Hoje, relembrou o que pensara com metade de sua idade e percebeu que tudo e nada mudou: sobreviveu e está viva, vivíssima, para continuar a morrer de novos amores.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Vinte e poucos anos estavam sentados na cadeira à sua frente e havia tempo que ela não desfrutava de tão boa companhia. Desacostumada, não sabia onde punha as mãos - e segurar o copo insistentemente faria dela, no mínimo, deselegante.

Ao perceber seu relativo descompasso, recaiu um braço sobre o encosto de sua cadeira e acabou por despertar nele, maliciosamente, um sorriso.

Falaram de quando e como se conheceram.
Lembraram amigos em comum.
Riram juntos das besteiras adolescentes que diziam.
Contaram o que faziam, os sonhos, as dúvidas que tinham.

E, naquele dia, afinal, tiveram o direito a uma alegria fugaz.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Ela ensaiou esta postagem em primeira pessoa.
Não deu.

As primeiras pessoas são sempre egoístas e plural de modéstia não caberia aqui, quando, para ela, um "nós" diz tanto.

A questão é que lhe vieram falar de cordialidade! E ela pesquisou:

Segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa,

cordialidade
■
substantivo feminino
1 qualidade de cordial
2 manifestação explícita de afeto e simpatia
Ex.: recebeu-o com viva cordialidade.

Gostou, particularmente, da segunda acepção. Não pelo afeto ou simpatia, mas pelo caráter de tornar explícito.
Pensou, pois, que cordial teria sido um abraço quando voou ao seu encontro, ou um telefonema no meio da semana, enquanto ainda se pertenciam um ao outro, mesmo que implicitamente.

Cordiais teriam sido tantas coisas! Tantas! Mas tudo era "tanto", que tornou pesada toda manifestação de carinho a quem um dia se lhe doou sem titubear.

E tanto que ela avisou... as palavras machucam!
Um "pelo menos" não é algo que se diga assim, sem pensar. Quando disse para não escolher as palavras, disse do mais fundo do coração, mas ela não tinha ideia do quão superficiais eram os sentimentos que ele ainda tinha.

Mas ele, pelo menos, lhe desejou parabéns. Pelo menos!!! (Só se esqueceu de todo o resto, pensou ela.)

Desse jeito, ela não se cansará de insistir que ele não se importa. Afinal é muito fácil dizer isso quando a superação está em estágio avançado.

Então, para cada cordialidade sem importância, ela lhe dará, sim, um tapa, pois o que ela sofreu por ele dá a ele o dever de oferecer a ela a outra face, para que ela lhe bata quantas vezes forem necessárias, até exaurir a sua dor.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Acordada de um sonho intranquilo, conversou com sua mãe que já era hora de enviar a ele uma carta. Não gostou do sentimento impreciso que lhe tomou o sono na noite anterior e não saberia, jamais, conviver com algo tão mesquinho, especialmente para com alguém a quem um dia amou.

Sabia da rudeza de suas últimas palavras e, por isso, resolveu escrever-lhe:

Caro amigo,

É de coração aberto que te chamo assim. Sei que, por um tempo, muito tempo, não fomos amigos; apenas conhecidos. Todavia também sei que fomos companheiros e companheiros como nós, tão cúmplices de nós mesmos, não se encontram facilmente por aí.

Desculpe se fui rude ao te agradecer o teu desprezo, mas temia que minha mais humana alegria fosse inibida por mais um sorriso teu. Os teus sorrisos, bem sabes, não foram, nos últimos meses, aqueles pelos quais eu teria dado o meu reino para ver.

Senti-me triste por não ter visto, em tuas últimas palavras, a tristeza que senti quando nosso "nós" chegou ao fim. Hoje, porém, a decepção já se perdeu em meio às tantas boas lembranças que "o menino dela" deixou em mim. E também se foi porque sei que, em ti, "a menina dele" ainda existe, da forma como costumava ser: tua, somente tua, de mais ninguém. Ele dela e ela dele são o melhor de ti em mim; de mim, em ti.

Eu quis poder-te dizer tudo pessoalmente, mas esse teu mundo tão novo não me permitiu. E agora o meu mundo novo adiará, para talvez nunca mais, o reencontro.

Escrevo-te não para te dizer que perdoei.
Se isso te dissesse, hoje, não estaria mentindo ou agindo de má fé, mas tenho a certeza de que o meu coração, tão errôneo e tão mesquinho, lembraria, no futuro, que não era ainda capaz de perdoar e te diria, sem dó nem piedade, o quanto sofreu por ti. Não te posso desculpar, mas já não te vejo maculado, apenas equivocado na escolha que fizeste, ao dizer-me que te querias para sempre meu.

Não te peço respostas, mas não porque as tema. Peço-te somente que, se um dia pensares em te dirigires a mim, não tentes escolher bem as palavras, pois, longe de mim, estás destreinado e não me quererás magoar mais, assim.

Feliz 2010.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Ela quis que o mundo soubesse o quanto sofria.
Não se deixou solitária nem por um segundo, para que sequer a menor angústia lhe ocupasse um neurônio em pensamento.

E foi, ao dividir tanta amargura, que encontrou um bem-querer. Alguém que lhe mostrou ser possível subir num ônibus com calor e descer com uma nova e fugaz paixão.

A partir de agora, consciente de toda efemeridade de todos nós, por essência, ela faz saber: não seja imortal, posto que é chama, mas que seja fullgás enquanto dure.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

De tanto dizer-lhe em pensamento, ela ficou sem ter o que dizer.

domingo, 8 de novembro de 2009

Eles finalmente se cruzaram.
Ela pensou, por muito tempo, no que lhe diria quando isso acontecesse. Ele, provavelmente, fez o mesmo.

Trocaram olhares e, com esse mesmo olhar, fingiram não se terem visto.

Ele dobrou na primeira esquina, como de costume.
Ela continuou em frente, mas tornou a pensar no que diria quando tudo acontecesse novamente.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Na noite anterior, da varanda, ela se viu surgir no horizonte sobre a Sé. Há tempos não se via daquela forma, mas não pôde deixar de se perguntar: quantos nomes mais ela terá, daqui pra frente?

Mas o importante, naquele momento, é que ela estava cheinha, cheinha. Pedindo, implorando, chamando toda a atenção do mundo para que olhassem para ela.

Se mais alguém notou, não se sabe. No entanto, de pouco adianta, pois ela continuará vagando soberana, no céu, no imaginário e nas lembranças daquele que um dia quis chamá-la assim.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A campainha tocou e ela foi abrir a porta.
O carteiro trazia consigo uma mensagem de alguém há pouco distante, que lhe falava, agora, para aliviar-se (talvez) de uma culpa.

O bilhete não trazia uma pergunta, mas pedia, não secretamente, por uma resposta. Ela não tinha. E, por não tê-la, resolveu calar-se, mais uma vez, para que a escolha das palavras certas não machucasse de vez o que tinha de mais seu.

Na mensagem, um perdão imperdoável, um alívio pretensioso das memórias que ficarão, por ele, esquecidas em um canto qualquer.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O telefone tocou. Ela não esperava.
Do outro lado da linha:

- Filme, pipoca e guaraná?

A 100m dali, além daquilo para que fora convidada, imaginou apenas as lágrimas que viriam dos risos e, talvez, do coração. Ledo engano!

Nem filme, nem pipoca, nem guaraná. Nem lágrimas.
Um novo convite. Convite feito, convite aceito.

Já andava desacostumada aos segredos e às revelações da noite: a adrenalina dos ritmos e aquele verso que fez estender-se-lhe a mão.

Hesitou. Hesitaria quantas vezes fossem necessárias, mas alguém lhe fizera o favor de lembrar: agora, a escolha era dela. Somente dela.

Seduzida por aquele entusiasmo, aceitou. Ainda bem.

Na madrugada, feliz, dormiu com todas as possibilidades há muito olvidadas e que não lhe existiam na manhã anterior.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Ela voara de peito ansioso para o reencontro. Mal sabia que o porvir era ainda mais imprevisto, não expectável. Mas foi. E foi pensando e pesando os doces e os amargos que a fizeram estar ali.

- Boa noite, senhora! Em que posso ajudar? ... Sim, sim. Eu mesma fiz a sua reserva.

Reservas. Nada pior que reencontros com reservas. Mãos nos bolsos, olhar pesado, coração duvidoso. Evitando o olhar e sem qualquer outro contato, ele estendeu o braço na direção do corredor. Ao abrir a porta, a oferta de um frio e distante sofá que, em outros tempos, teria sido testemunha do que só a eles era reservado.

- Tanto faz. - disse ele.

Lado a lado, finalmente, cabeça recostada ao ombro que ainda era dela, ela abre:

- Estou triste.

Com o corpo reclinado para frente, cotovelos nas coxas e mãos entrelaçadas, ele suspira e, sem tocá-la, concorda balançando a cabeça.
Ela se afastou. Não sentia ali o conforto do ombro que tantas vezes se lhe oferecia em sinal de cumplicidade.

Pensando tudo ser mal-entendido, pediu uma única explicação:

- O que eu deveria ter entendido?
- Não sei. Não sei o que quis dizer com isso.

Não eram mal-entendidos. As pistas lhe eram apresentadas desde a partida, mas ele se enganava e tentava enganá-la fazendo os sentimentos parecerem sem motivos.

Não havia mais chance. (?)
Mas ainda havia amor.
Então, mesmo os menos românticos saberiam: se há amor, há chance.

E nisso ele a fez acreditar até a manhã seguinte, expondo suas inseguranças sobre a distante vida a dois, mas sempre ratificando a existência (até então, inquestionável) de amor.

Ainda havia amor e, enquanto houvesse, ela esperaria por ele.

Mas o amor só durou até a manhã seguinte.

E hoje ela só quer acreditar que essa percepção do fim tenha sido por ele ter sentido que era pouco digno da espera que ela lhe oferecia.
 

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