Certa vez, te disse: vamos parar antes que a gente se machuque irreversivelmente. Guardei esse cuidado como quem guarda água em cuia furada.
Naquele tempo, te ofereci casa com raiz, mas você me viu como infelicidade carimbada. Era o tamanho dos nossos medos se desencontrando, enfim.
Depois, você se carimbou em um papel ao lado de uma mulher que te vestiu de ausência, que te transformou em um quase-silêncio, que te fez desaprender o riso, que te pôs, o-be-di-en-te, a caminhar com aquele teu corpo tão ferido.
"Reencontar-me passa por estar contigo", você disse.
Mas então, como quem ajeita o passado para caber no bolso, você me diz que talvez não tivesse crescido se tivesse ficado comigo — como se eu fosse poda e não chão; como se meu amor não tivesse sido justamente a mão que te estimulava a ser inteiro.
Talvez eu seja só isto mesmo, esse intervalo onde os outros aprendem a voltar para si.
Talvez seja a vida me lembrando que tem gente, como eu, que é meio casa, meio travessia: o lugar onde alguém se encontra, o lugar por onde se passa, mas nunca o peito onde alguém realmente fica.
Um novo adeus não vai demorar, eu sei, porque você vai querer crescer e o espaço que te proponho é insuficiente.
E, quando você partir outra vez, saiba: restarei inteira, torcendo para que você o seja também.
Eu seguirei, pois fiz de mim o meu próprio lugar no mundo — e, por isso mesmo, não se preocupe comigo.
Nunca mais eu me desfaço por disfarce nenhum.

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