sexta-feira, 1 de maio de 2026

Vi a verdade passar por nós como um vento que levanta a cortina — rápido, mas suficiente para mostrar o que estava escondido. Ainda assim, não puxei o tecido de volta. Fiquei quieta, não por dúvida, mas por cansaço de disputar com silêncios já tão decididos.

Há coisas que a gente reconhece sem precisar tocar: a ausência de uma palavra, o desvio do olhar, o modo como certas promessas murcham antes mesmo de nascerem.

E há também as pequenas permanências que nunca, nunca se vão, como esses objetos que ficam nos cantos da casa guardando pedaços do caminho que você não quis declarar.

Abro uma porta e lá está, discreta e intacta, a lembrança etiquetada de um trajeto que nunca foi nosso, me dizendo, sem voz, aquilo que você escolheu não me dizer.

Você me ofereceu caminhos com a mesma leveza com que os recolheu, como se eu tivesse sido a desistência que nunca fui. E eu deixei. Deixei, porque percebi que insistir seria somente me ferir contra uma porta já bem trancada por dentro.

O que me dói, porém, sequer é o que não aconteceu, ou que você escolheu guardar, sabe? É esse gesto pequeno de me caber numa versão mais fácil, em que a falta vira minha e o silêncio te absolve. Isso é o que me dói.

Eu sei o que sei, e esse saber me impõe pouquíssimas opções. Para não te magoar, assumo meu erro comigo mesma: aceito carregar uma verdade sem ter onde pousá-la, para que você possa viver no conforto do que não tem coragem de dizer.

O erro é, sempre foi e sempre será meu.

Perdi.

Certa vez, te disse: vamos parar antes que a gente se machuque irreversivelmente. Guardei esse cuidado como quem guarda água em cuia furada.

Naquele tempo, te ofereci casa com raiz, mas você me viu como infelicidade carimbada. Era o tamanho dos nossos medos se desencontrando, enfim.

Depois, você se carimbou em um papel ao lado de uma mulher que te vestiu de ausência, que te transformou em um quase-silêncio, que te fez desaprender o riso, que te pôs, o-be-di-en-te, a caminhar com aquele teu corpo tão ferido.

"Reencontar-me passa por estar contigo", você disse. 

Mas então, como quem ajeita o passado para caber no bolso, você me diz que talvez não tivesse crescido se tivesse ficado comigo — como se eu fosse poda e não chão; como se meu amor não tivesse sido justamente a mão que te estimulava a ser inteiro.

Talvez eu seja só isto mesmo, esse intervalo onde os outros aprendem a voltar para si.

Talvez seja a vida me lembrando que tem gente, como eu, que é meio casa, meio travessia: o lugar onde alguém se encontra, o lugar por onde se passa, mas nunca o peito onde alguém realmente fica.

Um novo adeus não vai demorar, eu sei, porque você vai querer crescer e o espaço que te proponho é insuficiente.

E, quando você partir outra vez, saiba: restarei inteira, torcendo para que você o seja também. 

Eu seguirei, pois fiz de mim o meu próprio lugar no mundo — e, por isso mesmo, não se preocupe comigo.

Nunca mais eu me desfaço por disfarce nenhum.

 

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