sexta-feira, 1 de maio de 2026

Certa vez, te disse: vamos parar antes que a gente se machuque irreversivelmente. Guardei esse cuidado como quem guarda água em cuia furada.

Naquele tempo, te ofereci casa com raiz, mas você me viu como infelicidade carimbada. Era o tamanho dos nossos medos se desencontrando, enfim.

Depois, você se carimbou em um papel ao lado de uma mulher que te vestiu de ausência, que te transformou em um quase-silêncio, que te fez desaprender o riso, que te pôs, o-be-di-en-te, a caminhar com aquele teu corpo tão ferido.

"Reencontar-me passa por estar contigo", você disse. 

Mas então, como quem ajeita o passado para caber no bolso, você me diz que talvez não tivesse crescido se tivesse ficado comigo — como se eu fosse poda e não chão; como se meu amor não tivesse sido justamente a mão que te estimulava a ser inteiro.

Talvez eu seja só isto mesmo, esse intervalo onde os outros aprendem a voltar para si.

Talvez seja a vida me lembrando que tem gente, como eu, que é meio casa, meio travessia: o lugar onde alguém se encontra, o lugar por onde se passa, mas nunca o peito onde alguém realmente fica.

Um novo adeus não vai demorar, eu sei, porque você vai querer crescer e o espaço que te proponho é insuficiente.

E, quando você partir outra vez, saiba: restarei inteira, torcendo para que você o seja também. 

Eu seguirei, pois fiz de mim o meu próprio lugar no mundo — e, por isso mesmo, não se preocupe comigo.

Nunca mais eu me desfaço por disfarce nenhum.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Saudade pequena é mosquito leve.
Ronda as janelas do peito,
mastiga lembranças em pele fina,
cheira o vento à procura do teu rastro.

Cinco dias sabem ser muito tempo,
porque não cessam as vontades:
de rir de nada junto,
de dividir o sossego,
de deixar o tempo caminhar frouxo,
de ouvir teu assovio quando bato à porta do ninho,
de reaprender, a cada dia, o encaixe do abraço,
de acender meu parco silêncio
em meu abundante descompasso,
de ser furacão só para te encantar,
de pertencer, inteira, ao agora.

Passa, tempo.
Deixa logo que a saudade se deite
no jardim daquele peito que, 
em pleno outono, voltou a florir.

Deixa que o abraço comece antes de esse corpo chegar.
Que me toque como só o vento entende.
Que não seja mais ela, a saudade, essa pele no espaço entre a gente.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Enterrou no peito o filho que jamais terá.
Fez cova rasa com as mãos, que, há muito, pagam a conta atrasada.
Em vez do drama usual, preferiu o silêncio, pois aprendeu a calar inseguranças; a língua virando poeira dentro da boca.

Quarenta anos chegaram como um fato, não como susto.
Faltou dinheiro, faltou chão.
Sobrou o medo de dizer em voz alta.

Ele não queria papel; queria, no entanto, um filho com ela.
Estranha equação que ela não soube resolver.

Sabia que seriam bons pais, mas nunca acreditou ser alguém que fica.
Ensinaram-na que não servia para durar em ninguém.
Acreditou.
Aprendeu, cedo, muito cedo, a se pensar provisória.

O tempo, agora, fechou a porteira.
O corpo, cansado, concorda com a desistência, enquanto o desejo, sonolento, assiste ao leite azedar no balde.

Ela o amava, e isso era real.

Talvez bastasse.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Ele ainda não sabe, mas ela jamais morará com ele.
Nem dividirá o sal, nem os domingos, nem o silêncio das nove da noite, quando o cansaço pede colo.

Ela já entendeu: amá-la é possível quando ela é riso e inventa o mundo com palavras novas.
Mas basta o amanhã dar um passo em direção a ela, para que algo dentro dele se contraia, como se o nome dela fosse febre.

Ela percebe os movimentos sutis.
O olhar fugidio, a pressa em mudar de assunto. A negativa reiterada, como se compromisso, com ela, apenas com ela, o envenenasse.

Ela logo recolhe algumas de suas próprias migalhas e as guarda no bolso junto a notas vencidas.
Olha para o espelho.
E pensa.
E pensa.
E pesa.

Ela pesa.

Talvez, então, amor não seja abrigo, mas lugar bonito — e breve, sempre breve —, que, de passagem, faz seu riso arder.
Para ela, sobretudo, amor é memória: desconhece futuro.
É ferida antiga, nela sempre reaberta, para que nunca se esqueça de que viver também é reconhecer-se em contínua solidão.

[Agosto, 2025]

sábado, 20 de dezembro de 2025

Saiu da sala como quem desamarra um nó do pescoço, pois cultivavam sobre ela palavras tortas em quintais que ela não frequentava.

Diziam que ela era pequena, mas eram eles os que mediam o mundo com réguas quebradas.

Descobriu que sua imagem era, diuturnamente, inventada pela realidade de quem vê o mundo com egoísta pobreza no olhar.

Quando for embora, levará só o que importa: o silêncio limpo, a inteligência (nem sempre) descalça e a certeza de que crescer não é caber no pensamento estreito de ninguém.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Você me prometeu contar, e eu acreditei.
Não por ingenuidade, mas por fome.
Fome de pertencer.

Esperei, conversa após conversa, o instante em que tua palavra tomaria corpo e, quem sabe, me abraçaria.
Mas teu silêncio nunca se rendeu à confissão.

Implacável, o tempo atravessou tua promessa como quem cruza ruas desertas.
Estive lá, observando, ouvindo o tique-taque mastigar a esperança.

Percebi, então, que teu silêncio nunca foi esquecimento, mas escolha.
Uma escolha tão firme que tudo ao redor aprendeu a calar contigo.
Eu, inclusive.

E a dor não se dispôs à hesitação.
Desta vez, todavia, não lhe darei morada, porque já não espero mais.
Não é desistência, por favor, me entenda.
É só um tipo novo de paz, daquele que nasce quando as esperas morrem, sabe?

E, antes que eu esqueça, anteontem abri o dicionário e me dei conta de uma coisa.
Há nomes de mais — e bonitos demais — para nomear o abismo que se impõe entre estas duas almas quando elas se negam à cumplicidade.
Amor me pareceu um deles.

Você não acha?

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Faço de conta que sou rasa.
Assim, ninguém mergulha em mim de cabeça e não me quebra mais os azulejos.

Cansei de amores paraplégicos.
Na vida, não mais trampolim.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

E, no fim das contas, Ela não estava mesmo louca.
O que viu era verdade. A mais pura verdade, a traição escancarada.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Toda essa sacanagem me fez acreditar que ninguém é diferente. Até porque, caso a caso, "todo mundo é diferente" e acaba sendo igual.

Será que eu serei muito egoísta se não quiser pagar pra ver de novo?

:(

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Linguageiro, meu novo blog

Este não morrerá, mas a frequência das postagens tem sido cada vez menor. Mudei o foco, mas, sempre que tiver algo para dizer por aqui, direi.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Então ele começou a falar. Com disciplina, ela tentava entender o que ele lhe dizia. Não conseguiu. As sílabas pareciam cortadas. As palavras não existiam e, enfim, ela percebeu que nada mais fazia sentido.

Ela sorriu.
Calçou os chinelos, reamarrou o robe floral de seda.
Levantou-se, saiu da casa e daquela vida que talvez nunca tivesse sido dela. Fechou a porta e, clichemente, foi ser feliz.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Tudo estava igual, mas agora o ar se cortava com faca. Ele sabia o mal que fizera a ela, mas não imaginava que o tempo, embora um só, fazia-se lento para aqueles cujo mais grave e único delito fora amar demais.

Quis manifestar-se, mas a vergonha de sua mesquinhez o manteve silente a observar o tempo que esquecera de passar por ali. Pensou em dizer a ela toda a verdade, a confusão que lhe tomou o peito e fê-lo agir sem respeito com alguém a quem um dia dirigiu palavras de amor questionavelmente verdadeiro. Fraco, não pôde; não quis; não soube.

Mas agora ela estava ali, olhando para ele, esperando qualquer palavra que nem ela, nem ele sabiam.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Sentou-se em frente a ele, encarando-lhe o olhar baixo de quem em bolsos escondia as mãos. Ponderou. Levantou-se mais uma vez e flutuou em direção ao café que esfriara sobre a mesa. Deu um gole, talvez o mais amargo desde a partida dele. Voltou a encará-lo.

Quis lhe bater, macular os traços que ainda restavam daquele a quem um dia se entregou. Não havia por quê. O amante sucumbira entre os lençóis; o amado, no desbotamento natural das lembranças que, naquela cidade fria, ele deixou para trás.

Em pensamento, atirou a xícara contra a parede branca, mas deixou por isso, porque depois estaria mais uma vez sozinha a juntar cacos, remontando metaforicamente o que vinha sendo a sua vida desde o dia em fora amputada da história que ajudou a construir.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Eram 7h da manhã de um sábado nublado.
Sentada à mesa, ela lia as manchetes do dia anterior. O café esfriara e o pão, adormecido, permanecia encostado a um canto do prato.

Ouviu a campainha. Dirigiu-se à porta e pôde avistá-lo pelo olho mágico.
Quanto tempo havia desde seu último contato? Por que a procurava agora?

Amarrou o robe floral de seda e, respirando fundo, girou a chave e a maçaneta. Olharam-se por poucos e infindáveis segundos, até que ele, no olhar, convidou-se para entrar. Embora receosa, apontou-lhe o sofá ao lado do corredor, onde repousavam as almofadas que ele lhe dera em seu último aniversário.

O tempo havia parado ali: os mesmos quadros, os livros e as correspondências que ele deixara para trás. Olhou ao redor e lembrou o que viveram naqueles espaços: entre cafés e fotos, risos e abraços ausentes; a lista das coisas que sonharam juntos, em separado.

Enquanto isso, encostada à janela, ela fitava as nuvens que ainda se podiam distinguir no céu cinzento. Cultivava o silêncio que ele lhe oferecera durante anos de ausência inexplicada; esperava por um gesto, por uma palavra que lhe justificasse o tempo que esperara por eles. Nada.

Então ela se viu sozinha, como sempre esteve, mas respirou toda liberdade que alguém poderia ter. E, de repente, ser livre não mais a assustava.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Quando chegou o momento de conhecerem-na como só Ele sabia, Ela se permitiu sorrir. Ingenuamente, sem saber que a distância entre aqueles corpos era intransponível, o Outro lhe perguntou: "De que sorris?"
Não soube nem lhe pôde explicar, mas quase morreu de saudade, real e pleonasticamente, porque seus sorrisos eram cuidadosamente construídos por eles dois. Ele os entendia bem e ficava feliz em vê-los. Da mesma forma, Ela era feliz em ouvir todos os Seus sons.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Não adiantava mais tentar. Seu coração ardia como pés em fim de baile.
Endurecida na esperança de um amor que não lhe era mais oferecido, quis reencontrar, perguntar "Como vai?", ser dele em sua mais sincera e delicada plenitude. Não pôde.

Precisava se apaixonar, nem que fosse por ela mesma.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Obrigada por me escrever. Há tempos não me reservavam tão sinceros sentimentos, mesmo sendo de pesar.
Não. Não se angustie ao ver as minhas lágrimas, porque, também há tempos, não as conheço mais.
O que me apressa é essa virtude a que chamam de paciência, mas que me entrega à solidão.

Peço-lhe que, ao me observar, se meu peito vir chorar, não se culpe. As pernas continuam tortas, mas ainda sabem caminhar.

Beijo no coração.

domingo, 19 de setembro de 2010

Gosto do colorido e dos contornos da vida nova.
Mas, por ora, ficaria satisfeita com uma vida em tons de cinza, naquele famoso preto e branco que daria a ela toda a subjetividade romântica de que tanto preciso.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Na gaveta, um papel mal dobrado, com traços de amassado.
Abriu-o.

"A mim, bastaria que me dissesses ter lembrado de sermos feitos um pro outro. Um chamado em qualquer noite fria, para que eu levasse a ti meu aconchego e para que me fizesses sorrir daquele jeito que não sorri para mais ninguém. A mim, talvez, bastar-me-ias."

Não sabia mais por que o escrevera.
Mal educada, jogou-o pela janela, e para fora de uma vida que um dia também foi sua.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Esta é só mais uma história comum de um par de pernas curtas.
Uma história da qual você já deve ter ouvido falar, mas não faz ideia do tanto que ainda está por trás e que vem à tona de mansinho, querendo derrubar.

As suas pernas curtas

As pernas curtas tinham um caráter doce e um sorriso cativante. Andavam sempre em boas companhias e arranjaram um par de pernas tortas com quem se enroscar. O enlace foi tão certo, que resolveram se casar.

Mas as pernas tortas não sabiam que as pernas curtas estavam fazendo aquilo só porque achavam que as pernas, mesmo tortas, eram legais. As curtas não queriam mais com as tortas se enroscar. Era um esforço para as curtas pensar em dividir o mesmo espaço com pernas agora tão sem graça. Mesmo assim, as pernas tortas eram legais e já haviam caminhado longo percurso ao lado das curtas. E ratificaram se casar.

Mas, pouco depois, o joelho na quina da mesa de centro.

E as pernas tortas aprenderam, com aquela dor aguda, que com pernas curtas não se deve casar. Afinal, é complicado lidar com quem quer dar passo maior que a própria perna, não é mesmo?
 

Copyright 2010 O que tenho de mais meu.

Theme by WordpressCenter.com.
Blogger Template by Beta Templates.