segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Ele ainda não sabe, mas ela jamais morará com ele.
Nem dividirá o sal, nem os domingos, nem o silêncio das nove da noite, quando o cansaço pede colo.

Ela já entendeu: amá-la é possível quando ela é riso e inventa o mundo com palavras novas.
Mas basta o amanhã dar um passo em direção a ela, para que algo dentro dele se contraia, como se o nome dela fosse febre.

Ela percebe os movimentos sutis.
O olhar fugidio, a pressa em mudar de assunto. A negativa reiterada, como se compromisso, com ela, apenas com ela, o envenenasse.

Ela logo recolhe algumas de suas próprias migalhas e as guarda no bolso junto a notas vencidas.
Olha para o espelho.
E pensa.
E pensa.
E pesa.

Ela pesa.

Talvez, então, amor não seja abrigo, mas lugar bonito — e breve, sempre breve —, que, de passagem, faz seu riso arder.
Para ela, sobretudo, amor é memória: desconhece futuro.
É ferida antiga, nela sempre reaberta, para que nunca se esqueça de que viver também é reconhecer-se em contínua solidão.

[Agosto, 2025]

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