sábado, 20 de dezembro de 2025

Saiu da sala como quem desamarra um nó do pescoço, pois cultivavam sobre ela palavras tortas em quintais que ela não frequentava.

Diziam que ela era pequena, mas eram eles os que mediam o mundo com réguas quebradas.

Descobriu que sua imagem era, diuturnamente, inventada pela realidade de quem vê o mundo com egoísta pobreza no olhar.

Quando for embora, levará só o que importa: o silêncio limpo, a inteligência (nem sempre) descalça e a certeza de que crescer não é caber no pensamento estreito de ninguém.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Você me prometeu contar, e eu acreditei.
Não por ingenuidade, mas por fome.
Fome de pertencer.

Esperei, conversa após conversa, o instante em que tua palavra tomaria corpo e, quem sabe, me abraçaria.
Mas teu silêncio nunca se rendeu à confissão.

Implacável, o tempo atravessou tua promessa como quem cruza ruas desertas.
Estive lá, observando, ouvindo o tique-taque mastigar a esperança.

Percebi, então, que teu silêncio nunca foi esquecimento, mas escolha.
Uma escolha tão firme que tudo ao redor aprendeu a calar contigo.
Eu, inclusive.

E a dor não se dispôs à hesitação.
Desta vez, todavia, não lhe darei morada, porque já não espero mais.
Não é desistência, por favor, me entenda.
É só um tipo novo de paz, daquele que nasce quando as esperas morrem, sabe?

E, antes que eu esqueça, anteontem abri o dicionário e me dei conta de uma coisa.
Há nomes de mais — e bonitos demais — para nomear o abismo que se impõe entre estas duas almas quando elas se negam à cumplicidade.
Amor me pareceu um deles.

Você não acha?

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Faço de conta que sou rasa.
Assim, ninguém mergulha em mim de cabeça e não me quebra mais os azulejos.

Cansei de amores paraplégicos.
Na vida, não mais trampolim.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

E, no fim das contas, Ela não estava mesmo louca.
O que viu era verdade. A mais pura verdade, a traição escancarada.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Toda essa sacanagem me fez acreditar que ninguém é diferente. Até porque, caso a caso, "todo mundo é diferente" e acaba sendo igual.

Será que eu serei muito egoísta se não quiser pagar pra ver de novo?

:(

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Linguageiro, meu novo blog

Este não morrerá, mas a frequência das postagens tem sido cada vez menor. Mudei o foco, mas, sempre que tiver algo para dizer por aqui, direi.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Então ele começou a falar. Com disciplina, ela tentava entender o que ele lhe dizia. Não conseguiu. As sílabas pareciam cortadas. As palavras não existiam e, enfim, ela percebeu que nada mais fazia sentido.

Ela sorriu.
Calçou os chinelos, reamarrou o robe floral de seda.
Levantou-se, saiu da casa e daquela vida que talvez nunca tivesse sido dela. Fechou a porta e, clichemente, foi ser feliz.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Tudo estava igual, mas agora o ar se cortava com faca. Ele sabia o mal que fizera a ela, mas não imaginava que o tempo, embora um só, fazia-se lento para aqueles cujo mais grave e único delito fora amar demais.

Quis manifestar-se, mas a vergonha de sua mesquinhez o manteve silente a observar o tempo que esquecera de passar por ali. Pensou em dizer a ela toda a verdade, a confusão que lhe tomou o peito e fê-lo agir sem respeito com alguém a quem um dia dirigiu palavras de amor questionavelmente verdadeiro. Fraco, não pôde; não quis; não soube.

Mas agora ela estava ali, olhando para ele, esperando qualquer palavra que nem ela, nem ele sabiam.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Sentou-se em frente a ele, encarando-lhe o olhar baixo de quem em bolsos escondia as mãos. Ponderou. Levantou-se mais uma vez e flutuou em direção ao café que esfriara sobre a mesa. Deu um gole, talvez o mais amargo desde a partida dele. Voltou a encará-lo.

Quis lhe bater, macular os traços que ainda restavam daquele a quem um dia se entregou. Não havia por quê. O amante sucumbira entre os lençóis; o amado, no desbotamento natural das lembranças que, naquela cidade fria, ele deixou para trás.

Em pensamento, atirou a xícara contra a parede branca, mas deixou por isso, porque depois estaria mais uma vez sozinha a juntar cacos, remontando metaforicamente o que vinha sendo a sua vida desde o dia em fora amputada da história que ajudou a construir.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Eram 7h da manhã de um sábado nublado.
Sentada à mesa, ela lia as manchetes do dia anterior. O café esfriara e o pão, adormecido, permanecia encostado a um canto do prato.

Ouviu a campainha. Dirigiu-se à porta e pôde avistá-lo pelo olho mágico.
Quanto tempo havia desde seu último contato? Por que a procurava agora?

Amarrou o robe floral de seda e, respirando fundo, girou a chave e a maçaneta. Olharam-se por poucos e infindáveis segundos, até que ele, no olhar, convidou-se para entrar. Embora receosa, apontou-lhe o sofá ao lado do corredor, onde repousavam as almofadas que ele lhe dera em seu último aniversário.

O tempo havia parado ali: os mesmos quadros, os livros e as correspondências que ele deixara para trás. Olhou ao redor e lembrou o que viveram naqueles espaços: entre cafés e fotos, risos e abraços ausentes; a lista das coisas que sonharam juntos, em separado.

Enquanto isso, encostada à janela, ela fitava as nuvens que ainda se podiam distinguir no céu cinzento. Cultivava o silêncio que ele lhe oferecera durante anos de ausência inexplicada; esperava por um gesto, por uma palavra que lhe justificasse o tempo que esperara por eles. Nada.

Então ela se viu sozinha, como sempre esteve, mas respirou toda liberdade que alguém poderia ter. E, de repente, ser livre não mais a assustava.
 

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