sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Saudade pequena é mosquito leve.
Ronda as janelas do peito,
mastiga lembranças em pele fina,
cheira o vento à procura do teu rastro.

Cinco dias sabem ser muito tempo,
porque não cessam as vontades:
de rir de nada junto,
de dividir o sossego,
de deixar o tempo caminhar frouxo,
de ouvir teu assovio quando bato à porta do ninho,
de reaprender, a cada dia, o encaixe do abraço,
de acender meu parco silêncio
em meu abundante descompasso,
de ser furacão só para te encantar,
de pertencer, inteira, ao agora.

Passa, tempo.
Deixa logo que a saudade se deite
no jardim daquele peito que, 
em pleno outono, voltou a florir.

Deixa que o abraço comece antes de esse corpo chegar.
Que me toque como só o vento entende.
Que não seja mais ela, a saudade, essa pele no espaço entre a gente.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Enterrou no peito o filho que jamais terá.
Fez cova rasa com as mãos, que, há muito, pagam a conta atrasada.
Em vez do drama usual, preferiu o silêncio, pois aprendeu a calar inseguranças; a língua virando poeira dentro da boca.

Quarenta anos chegaram como um fato, não como susto.
Faltou dinheiro, faltou chão.
Sobrou o medo de dizer em voz alta.

Ele não queria papel; queria, no entanto, um filho com ela.
Estranha equação que ela não soube resolver.

Sabia que seriam bons pais, mas nunca acreditou ser alguém que fica.
Ensinaram-na que não servia para durar em ninguém.
Acreditou.
Aprendeu, cedo, muito cedo, a se pensar provisória.

O tempo, agora, fechou a porteira.
O corpo, cansado, concorda com a desistência, enquanto o desejo, sonolento, assiste ao leite azedar no balde.

Ela o amava, e isso era real.

Talvez bastasse.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Ele ainda não sabe, mas ela jamais morará com ele.
Nem dividirá o sal, nem os domingos, nem o silêncio das nove da noite, quando o cansaço pede colo.

Ela já entendeu: amá-la é possível quando ela é riso e inventa o mundo com palavras novas.
Mas basta o amanhã dar um passo em direção a ela, para que algo dentro dele se contraia, como se o nome dela fosse febre.

Ela percebe os movimentos sutis.
O olhar fugidio, a pressa em mudar de assunto. A negativa reiterada, como se compromisso, com ela, apenas com ela, o envenenasse.

Ela logo recolhe algumas de suas próprias migalhas e as guarda no bolso junto a notas vencidas.
Olha para o espelho.
E pensa.
E pensa.
E pesa.

Ela pesa.

Talvez, então, amor não seja abrigo, mas lugar bonito — e breve, sempre breve —, que, de passagem, faz seu riso arder.
Para ela, sobretudo, amor é memória: desconhece futuro.
É ferida antiga, nela sempre reaberta, para que nunca se esqueça de que viver também é reconhecer-se em contínua solidão.

[Agosto, 2025]

sábado, 20 de dezembro de 2025

Saiu da sala como quem desamarra um nó do pescoço, pois cultivavam sobre ela palavras tortas em quintais que ela não frequentava.

Diziam que ela era pequena, mas eram eles os que mediam o mundo com réguas quebradas.

Descobriu que sua imagem era, diuturnamente, inventada pela realidade de quem vê o mundo com egoísta pobreza no olhar.

Quando for embora, levará só o que importa: o silêncio limpo, a inteligência (nem sempre) descalça e a certeza de que crescer não é caber no pensamento estreito de ninguém.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Você me prometeu contar, e eu acreditei.
Não por ingenuidade, mas por fome.
Fome de pertencer.

Esperei, conversa após conversa, o instante em que tua palavra tomaria corpo e, quem sabe, me abraçaria.
Mas teu silêncio nunca se rendeu à confissão.

Implacável, o tempo atravessou tua promessa como quem cruza ruas desertas.
Estive lá, observando, ouvindo o tique-taque mastigar a esperança.

Percebi, então, que teu silêncio nunca foi esquecimento, mas escolha.
Uma escolha tão firme que tudo ao redor aprendeu a calar contigo.
Eu, inclusive.

E a dor não se dispôs à hesitação.
Desta vez, todavia, não lhe darei morada, porque já não espero mais.
Não é desistência, por favor, me entenda.
É só um tipo novo de paz, daquele que nasce quando as esperas morrem, sabe?

E, antes que eu esqueça, anteontem abri o dicionário e me dei conta de uma coisa.
Há nomes de mais — e bonitos demais — para nomear o abismo que se impõe entre estas duas almas quando elas se negam à cumplicidade.
Amor me pareceu um deles.

Você não acha?

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Faço de conta que sou rasa.
Assim, ninguém mergulha em mim de cabeça e não me quebra mais os azulejos.

Cansei de amores paraplégicos.
Na vida, não mais trampolim.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

E, no fim das contas, Ela não estava mesmo louca.
O que viu era verdade. A mais pura verdade, a traição escancarada.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Toda essa sacanagem me fez acreditar que ninguém é diferente. Até porque, caso a caso, "todo mundo é diferente" e acaba sendo igual.

Será que eu serei muito egoísta se não quiser pagar pra ver de novo?

:(

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Linguageiro, meu novo blog

Este não morrerá, mas a frequência das postagens tem sido cada vez menor. Mudei o foco, mas, sempre que tiver algo para dizer por aqui, direi.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Então ele começou a falar. Com disciplina, ela tentava entender o que ele lhe dizia. Não conseguiu. As sílabas pareciam cortadas. As palavras não existiam e, enfim, ela percebeu que nada mais fazia sentido.

Ela sorriu.
Calçou os chinelos, reamarrou o robe floral de seda.
Levantou-se, saiu da casa e daquela vida que talvez nunca tivesse sido dela. Fechou a porta e, clichemente, foi ser feliz.
 

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