Enterrou no peito o filho que jamais terá.
Fez cova rasa com as mãos, que, há muito, pagam a conta atrasada.
Em vez do drama usual, preferiu o silêncio, pois aprendeu a calar inseguranças; a língua virando poeira dentro da boca.
Quarenta anos chegaram como um fato, não como susto.
Faltou dinheiro, faltou chão.
Sobrou o medo de dizer em voz alta.
Ele não queria papel; queria, no entanto, um filho com ela.
Estranha equação que ela não soube resolver.
Sabia que seriam bons pais, mas nunca acreditou ser alguém que fica.
Ensinaram-na que não servia para durar em ninguém.
Acreditou.
Aprendeu, cedo, muito cedo, a se pensar provisória.
O tempo, agora, fechou a porteira.
O corpo, cansado, concorda com a desistência, enquanto o desejo, sonolento, assiste ao leite azedar no balde.
Ela o amava, e isso era real.
Talvez bastasse.
