quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Enterrou no peito o filho que jamais terá.
Fez cova rasa com as mãos, que, há muito, pagam a conta atrasada.
Em vez do drama usual, preferiu o silêncio, pois aprendeu a calar inseguranças; a língua virando poeira dentro da boca.

Quarenta anos chegaram como um fato, não como susto.
Faltou dinheiro, faltou chão.
Sobrou o medo de dizer em voz alta.

Ele não queria papel; queria, no entanto, um filho com ela.
Estranha equação que ela não soube resolver.

Sabia que seriam bons pais, mas nunca acreditou ser alguém que fica.
Ensinaram-na que não servia para durar em ninguém.
Acreditou.
Aprendeu, cedo, muito cedo, a se pensar provisória.

O tempo, agora, fechou a porteira.
O corpo, cansado, concorda com a desistência, enquanto o desejo, sonolento, assiste ao leite azedar no balde.

Ela o amava, e isso era real.

Talvez bastasse.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Ele ainda não sabe, mas ela jamais morará com ele.
Nem dividirá o sal, nem os domingos, nem o silêncio das nove da noite, quando o cansaço pede colo.

Ela já entendeu: amá-la é possível quando ela é riso e inventa o mundo com palavras novas.
Mas basta o amanhã dar um passo em direção a ela, para que algo dentro dele se contraia, como se o nome dela fosse febre.

Ela percebe os movimentos sutis.
O olhar fugidio, a pressa em mudar de assunto. A negativa reiterada, como se compromisso, com ela, apenas com ela, o envenenasse.

Ela logo recolhe algumas de suas próprias migalhas e as guarda no bolso junto a notas vencidas.
Olha para o espelho.
E pensa.
E pensa.
E pesa.

Ela pesa.

Talvez, então, amor não seja abrigo, mas lugar bonito — e breve, sempre breve —, que, de passagem, faz seu riso arder.
Para ela, sobretudo, amor é memória: desconhece futuro.
É ferida antiga, nela sempre reaberta, para que nunca se esqueça de que viver também é reconhecer-se em contínua solidão.

[Agosto, 2025]

sábado, 20 de dezembro de 2025

Saiu da sala como quem desamarra um nó do pescoço, pois cultivavam sobre ela palavras tortas em quintais que ela não frequentava.

Diziam que ela era pequena, mas eram eles os que mediam o mundo com réguas quebradas.

Descobriu que sua imagem era, diuturnamente, inventada pela realidade de quem vê o mundo com egoísta pobreza no olhar.

Quando for embora, levará só o que importa: o silêncio limpo, a inteligência (nem sempre) descalça e a certeza de que crescer não é caber no pensamento estreito de ninguém.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Você me prometeu contar, e eu acreditei.
Não por ingenuidade, mas por fome.
Fome de pertencer.

Esperei, conversa após conversa, o instante em que tua palavra tomaria corpo e, quem sabe, me abraçaria.
Mas teu silêncio nunca se rendeu à confissão.

Implacável, o tempo atravessou tua promessa como quem cruza ruas desertas.
Estive lá, observando, ouvindo o tique-taque mastigar a esperança.

Percebi, então, que teu silêncio nunca foi esquecimento, mas escolha.
Uma escolha tão firme que tudo ao redor aprendeu a calar contigo.
Eu, inclusive.

E a dor não se dispôs à hesitação.
Desta vez, todavia, não lhe darei morada, porque já não espero mais.
Não é desistência, por favor, me entenda.
É só um tipo novo de paz, daquele que nasce quando as esperas morrem, sabe?

E, antes que eu esqueça, anteontem abri o dicionário e me dei conta de uma coisa.
Há nomes de mais — e bonitos demais — para nomear o abismo que se impõe entre estas duas almas quando elas se negam à cumplicidade.
Amor me pareceu um deles.

Você não acha?

 

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